Coerência e ética

No último sábado, 30 de abril, aproveitei a deliciosa manhã ensolarada de outono para ir à feira, levando máquina fotográfica, disposta a fazer mais uma postagem sobre um dos meus lugares preferidos na face da Terra: a feira de produtos orgânicos do Bom Fim, em Porto Alegre.

Busquei minha encomenda de leite e manteiga, conferi e comprei o que havia de mais fresco e delicioso pra nossa semana de comidinhas gostosas e saudáveis e fui buscar um pão, na Banca do Pão do Nelson e…

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No lugar da banca, um cartaz avisando que ela estava em outro lugar, “fora” da Feira

Um cartaz avisava aos clientes que a Banca estava no parque – não no canteiro central onde a Feira acontece, mas do outro lado da rua.
Foi então que percebi que “os clarões” da “segunda quadra” não eram por acaso: muitas bancas estavam do outro lado, “fora da feira”.

Fui lá, buscar meu pão e descobrir o que estava acontecendo. A Banca do Nelson é negócio familiar. O Nelson faz os pães e as três queridíssimas da família, as duas filhas e a esposa Andreia, atendem aos clientes na manhã de sábado, esbanjando simpatia.

Andreia me explicou que, com a demora de anos para que se consiga a certificação de orgânicos, alguns produtores ainda não a têm. A Prefeitura de Porto Alegre, por meio dos fiscais da SMIC, impediu que aqueles cujo prazo tivesse decorrido permanecessem lá a não ser que milhões de coisas acontecessem e blá blá blá de um assunto que ainda vou precisar maiores explicações para entender.

O certo é que esse País ainda não entendeu que incentivar o pequeno produtor, a produção familiar e, principalmente, o ecológico faz todo mundo ganhar. Se a fiscalização, a certificação, enfim, a correção da coisa toda é absolutamente necessária para que possamos estar seguros e confiantes do que consumimos, por outro lado é absolutamente necessário facilitar a vida de quem faz bem, faz direito, com compromisso, com verdade e com ética. E, acreditem, o vento não tá favorecendo esse povo…

Andreia foi me explicando o que conseguia explicar, em meio à necessidade de prosseguir, atendendo aos fieis clientes, à emoção e tristeza com o cenário que se desenhou, à compreensão de que existe um lado muito importante pra todos com a fiscalização, enfim, em meio às tantas perguntas que eu fazia, tentando entender um pouco disso tudo e pensando: – O que a gente pode fazer para ajudar?

Então, o olhar de Andreia foi mais ao fundo e brilhou. Falava do compromisso que assumem com o que fazem, da dedicação, da seriedade; do quanto tudo isso tem a ver com conceito e ideal de vida. Andreia lembrou do filho Otávio, de 14 anos, e me contou: “Ele está fazendo as paçoquinhas, sabe? Vem vender e entregar, de bicicleta. Semana passada, não estávamos conseguindo linhaça orgânica. A linhaça vai na paçoquinha, mas é menos de 10% dos ingredientes totais, e a legislação permite o acréscimo de até 10% de ingredientes não orgânicos em produtos chamados orgânicos”.

Sim, sim, balancei a cabeça concordando. É o que diz a Lei.

Andreia, com os olhos cheios de lágrimas, prosseguiu: “Ele pensou, pensou, e depois chegou pra mim e disse: – Não vou fazer, mãe. Se não tem tudo orgânico não quero fazer”.

Pois é… Nem tudo é lei nessa vida, meus camaradas! A lei dos valores, dos ideiais, dos princípios de cada um é a mais bela de se ver. Salve, Otávio!

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